Nos dias 1, 2 e 3 de abril, o SESC Avenida Paulista recebeu a 9ª Conferência Internacional do Documentário, programação que integrou o Festival É Tudo Verdade 2009. Foram quatro mesas compostas por realizadores e teóricos especializados no gênero, que discutiram o tema O Documentário Engajado e abordaram diferentes aspectos das questões sociais e políticas no cinema documental.
No dia 2 aconteceu a mesa Denúncia com a participação do professor, roteirista e cineasta argentino Patrício Coll, do cineasta brasileiro Toni Venturi e do jornalista e cineasta Evaldo Mocarzel com mediação do professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da ECA-USP, Ismail Xavier. Evaldo cedeu gentilmente o texto de sua palestra para publicarmos, com exclusividade, no Portal do CTAv.
Palestra proferida por Evaldo Mocarzel na 9ª Conferência Internacional do Documentário.
Nem só de “obsolescência” vive o documentário brasileiro contemporâneo. No nosso País e no resto do mundo. Para quem não se lembra, “obsolescência” foi uma espécie de meta e missão apregoadas na imprensa pelo grande realizador João Moreira Salles, um dos nossos maiores cineastas em atividade, ao se referir à razão de ser de um filme documentário. Obsolescência vem do latim “obsolescere” e quer dizer “torna-se obsoleto, antiquado, arcaico, que caiu em desuso”. Talvez depois de ter vivenciado uma experiência traumática provocada pela truculência do poder público no Rio de Janeiro, o documentarista João Moreira Salles, realizador de títulos seminais como “Notícias de uma Guerra Particular”, tenha passado a defender essa “obsolescência”, uma certa “inutilidade” no papel político e social do documentário brasileiro contemporâneo.
Antes de defender o meu ponto de vista, gostaria de enfatizar que, para mim, João Moreira Salles é uma fonte permanente de inspiração e acho mesmo que ele é um dos realizadores mais genuínos da cena documental brasileira há várias décadas. João sempre declarou jamais ter alimentado o desejo de fazer um projeto de ficção propriamente dita. Em seus filmes, ele sempre se lançou a um rigoroso desafio de representar o “real” na linguagem do documentário, sem enveredar por experimentações que tornem ainda mais difusas as fronteiras nebulosas do filme documentário e da ficção propriamente dita, como a utilização de encenações e sensorialidades inspiradas na videoarte e no chamado cinema experimental e de vanguarda.
Mas, digressões à parte, o fato é que acredito piamente no papel político e social do cinema, principalmente do filme documentário. No entanto, não acho que o cinema mude nada, numa acepção mais emergencial e “revolucionária” do verbo. O cinema e a arte, de maneira geral, vão mimetizar os seus momentos históricos, sobretudo os paroxismos de mudanças mais transformadoras, por mais que a arte e o cinema sejam espaços de imensidão e de atemporalidade em que estaremos sempre condenados a ser contemporâneos.
Por outro lado, num mundo cada vez mais imagético e globalizado, o cinema tem, sim, uma multiplicidade de papéis, que vai desde o resgate de um frescor primal das imagens em movimento diante do olhar pornográfico de uma cultura cada vez mais “big brother”, até a transformação da leveza das câmeras digitais em instrumento político, semeando novos olhares, novas maneiras de ver e também de ouvir o mundo que nos envolve, em trabalhos que revelam uma espécie de auto-etnografia, colocado em prática por índios, negros, moradores de comunidades carentes, jovens transgressores na internet subvertendo as regras mercadológicas da indústria cultural, gays, lésbicas e uma infinidade de grupos sociais, minorias ou não.
Como afirmou o escritor e documentarista Jean-Louis Comolli no texto “Sob o Risco do Real”, na coletânea “Ver e Poder”, o documentário é uma espécie de espaço de resistência contra a informação-mercadoria dessa nossa sociedade do espetáculo, que parece só dar atenção a temas e a personagens sociais que consigam colocar a cara a tapa na mídia e na indústria cultural. Se não vêm à tona desse manto cibernético que nos envolve, parece não existir para o resto do mundo.
Por uma fatalidade, acabei enveredando por uma série de documentários sociais e algum tipo de semeadura desses filmes na sociedade brasileira me mostrou que o horizonte de expectativas que envolve o cinema, principalmente o filme documentário, tem, sim, uma fome de novos olhares, também novas maneiras de ouvir, uma avidez por informação humanizada sobre os mais diferentes assuntos. Trata-se de um imenso circuito alternativo que logicamente não está confinado nos multiplexes dos shopping centers. Um circuito alternativo que, sem ter encontrado um outro termo mais apropriado, costumo chamar de “institucional” e que engloba escolas públicas e privadas, universidades, sindicatos, hospitais, maternidades, secretarias de bem-estar social, secretarias do meio ambiente, secretarias de direitos humanos, institutos de pesquisa, entidades católicas, espíritas, protestantes, centros de candomblé, SESCs, SENAIs, SENACs, além de professores, psicólogos, terapeutas ocupacionais, médicos, enfim, um horizonte de expectativas que quer exibir filmes nos mais diferentes tipos de encontros, seminários, teses, monografias, palestras, dissertações de mestrado, de doutorado, e por aí vai.
No Brasil, o cinema é financiado com leis de incentivo através da renúncia fiscal de empresas que investem em cinema e em arte, de maneira geral, e depois debitam do imposto de renda. Acho que, além da experimentação de linguagens, oxigênio para a renovação de todas as manifestações artísticas, projetos bancados com verba pública também deveriam ter algum tipo de semeadura na sociedade como um todo, visando esse circuito alternativo que tem tanta fome de informação humanizada sobre os mais diferentes assuntos. Infelizmente, a imprensa hoje no Brasil parece estar convicta de que a boa utilização de verbas públicas é emplacar recordes de bilheteria de projetos do tipo blockbuster, mesmo que todo mundo saia do cinema depois do filme para comer pizza e a coisa fique por isso mesmo. Nada contra o entretenimento e principalmente contra o fortalecimento da nossa eternamente incipiente indústria de filmes, mas a semeadura cultural e social de filmes bancados com verbas públicas também deveria ser um tópico relevante na boa utilização desses orçamentos com incentivos fiscais.
Gostaria de citar alguns exemplos de algum tipo de semeadura social que detectei após o lançamento de filmes documentários que realizei nos últimos anos. Há nove anos, fiz um documentário sobre população de rua que se chama “À Margem da Imagem”, que, entre outros temas, procurou discutir a estetização da miséria e o roubo da imagem de quem está na exclusão mais absoluta. O documentário foi utilizado pela Secretaria do Bem-estar Social da prefeitura de São Paulo para a obtenção de verbas no Banco Mundial para o projeto do Albergue Boracéa, entre outras semeaduras.
Em 2005, realizei um documentário sobre Síndrome de Down, “Do Luto à Luta”, e distribuí de graça cerca de seis mil cópias para os mais diferentes destinos, de universidades, hospitais e maternidades a famílias com filhos ou parentes com Síndrome de Down, passando pelos mais diferentes tipos de profissionais na área de educação e saúde, incluindo ainda pesquisadores de uma emissora como a Rede Globo, que colocou, em horário nobre, uma novela que foi buscar inspiração nesse filme. Distribuí todas essas cópias do documentário de graça porque, de algum modo, precisava exorcizar uma relação mal-resolvida com o nascimento da minha própria filha com Síndrome de Down, Joana, e procurei universalizar no filme uma dor que nasceu de uma não-aceitação, talvez até mesmo uma rejeição branda desse desafio na minha vida. Na verdade, fiz o filme que gostaria de ter assistido no momento em que me deram a notícia do nascimento da minha filha. Se tivesse assistido a esse documentário naquele momento de extrema vulnerabilidade, talvez a minha reação tivesse sido outra, o meu luto não teria sido tão interminável, porque eu era totalmente ignorante no universo da Síndrome de Down. Acho que a grande vilã no terreno pantanoso da discriminação é a falta de informação, uma informação humanizada. Talvez uma das funções do documentário também seja essa, a transmissão de informações humanizadas, a semeadura de novos olhares sobre os mais diferentes assuntos, turvados pelos equívocos dos estereótipos e dos preconceitos, logicamente sem enveredar pela insuportável atmosfera dos chamados “filmes institucionais”, sempre com uma proposta de investigação de linguagem.
Mas, voltando às possibilidades de semeadura do filme documentário na nossa sociedade, um outro filme que realizei, “À Margem do Concreto”, sobre os sem-teto e os movimentos de moradia em São Paulo, foi utilizado em manifestações para a libertação de um dos grandes líderes do movimento, Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, que me disse fazer regularmente “trabalho de base” com o filme nas reuniões e nas assembléias nos prédios ocupados. Volto a dizer: um documentário pode não mudar nada, mas algum tipo de semeadura ele tem na nossa sociedade, nem que seja lançar novos olhares sobre situações banalizadas pelo hábito ou ofuscadas pelos preconceitos.
Mas afinal o que é um documentário? Um filme documentário é uma espécie de ficção de representação do “real”, cujo resultado final é sempre o atrito entre a subjetividade do olhar tendencioso do cineasta com a fugacidade extremamente fugidia da alteridade, desse “outro” sempre tão misterioso, num diálogo permanente com a imponderabilidade do acaso. Novamente citando Jean-Louis Comolli, o documentário é uma estrutura de linguagem que precisa ter uma certa “porosidade” ao acaso e não pode ser engessado por conceitos rígidos em demasia, senão a obra se torna um “filme de tese” sem o frescor e as surpresas dessa entidade oracular chamada “realidade”.
Por outro lado, agora citando o mestre Robert Bresson, que jamais fez um documentário, mas incansavelmente buscava o “real” na ficção propriamente dita, todo realizador sabe que o filme nasce no fundo do nosso olhar, e também na maneira como reorganizamos os sons inorganizados de todas as coisas, principalmente numa linguagem de fragmentos como a arte cinematográfica. Bresson escreveu o seguinte no livro “Notas sobre o Cinematógrafo”: “Nada no inesperado que não seja secretamente esperado por você.” Como se essa arquitetura do acaso que é um dos alicerces da linguagem do cinema, sobretudo do filme documentário, nascesse no fundo de nós mesmos nesse processo de fragmentar o mundo, estilhaçando o “real”, e depois reorganizando tudo na “emulsão bioquímica de nossas retinas”, de acordo com nosso gosto pessoal, estilo, inquietações e obsessões mais sinceras, agora citando o cineasta, fotógrafo e artista plástico Arthur Omar.
Em muitos momentos, tenho dúvidas se documentário é arte. Trata-se de um complexo lingüístico muito estranho, um terreno pantanoso em que todo procedimento estético tem um desdobramento ético imediato, pois estamos lidando com representações de fatos que realmente aconteceram e de pessoas reais que existem, independentemente do filme que estamos fazendo. Acho que o resultado final de todo esse processo, que é uma maneira maravilhosa de conhecer o mundo, é esse atrito já mencionado entre a subjetividade do realizador e essa entidade às vezes tão inexpugnável chamada alteridade, o mistério do “outro”.
Com as novas tecnologias digitais, que estão promovendo uma verdadeira revolução na História do Cinema, essa aparição também misteriosa e oracular que é o “outro” tem cada vez mais a possibilidade de se auto-representar na linguagem audiovisual, graças à leveza das câmeras e às facilidades dos programas de edição em computadores domésticos. Uma atitude impensável em outras décadas, em que documentaristas seminais, com outra revolução audiovisual nas mãos (as câmeras Arriflex 16 mm e os gravadores Nagra), tinham uma tendência a fazer documentários “engajados” em que romantizavam a imagem do nosso “povo”, outra entidade fugidia, difusa e não menos oracular. Foi uma atitude digníssima e absolutamente necessária naquele momento histórico. Hoje os tempos são outros e o digital trouxe essa possibilidade de uma participação efetiva do “outro” na construção da própria imagem. O projeto “Vídeo nas Aldeias”, de Vincent Carelli, é um exemplo preciso dessa auto-etnografia. Esse projeto seminal, diga-se de passagem, talvez seja um pouco anterior à explosão do digital, mas começou graças às facilidades do vídeo antes da era dos pixels, os pequenos quadradinhos que formam as imagens das novas tecnologias digitais.
Mas, digressões à parte, por mais que os personagens sociais dos nossos filmes estejam hoje tendo essa possibilidade de confeccionar a própria imagem graças às facilidades das câmeras digitais, acredito que cineastas jovens e veteranos, que acabam tendo mais trânsito na mídia, podem, sim, tentar colocar em pauta os temas políticos e sociais mais emergenciais nessa sociedade do espetáculo, pedindo novamente emprestada a expressão criada por Guy Debord. Sem paternalismos equivocados ou culpas de classe média cristã. Acho que uma atuação pode, sim, complementar a outra. Somos todos agentes políticos, mesmo que façamos um filme sobre a nossa própria família.
Vivemos um momento histórico muito interessante. Vejo duas tendências muito fortes no cinema contemporâneo no Brasil e no resto do mundo. Enquanto o documentário se ficcionaliza, lançando mão de estratégias de linguagem que vão desde encenações até experimentações inspiradas na videoarte, a ficção propriamente dita, por outro lado, vive uma espécie de revival, uma nostalgia do neo-realismo italiano, com farta utilização de atores não-profissionais e um pano de fundo documental talvez para legitimar a veracidade das imagens ficcionais que estão sendo criadas. Exemplos não faltam no cinema brasileiro e mundial. Meu único receio é que essa tendência na ficção propriamente dita vire um maneirismo frívolo: um pano de fundo documental como uma muleta ficcional. Hoje, há uma espécie de modismo, uma tendência quase hegemônica, uma sofreguidão imensa em deliberadamente hibridizar, misturar, embaralhar as fronteiras difusas que separam o documentário da ficção propriamente dita. Acho que, se um não-ator pode, um ator pode muito mais. Acredito na ficção propriamente dita, liberta de muletas documentais, assim como acredito piamente no documentário, por mais que não se saiba direito o que é. Mas que ele existe, existe! Num mundo com uma ânsia pornográfica de espiar a vida alheia, com uma indústria cultural soterrada de biografias, cinebiografias e telebiografias, quase sempre sucesso fácil de público, acho que um “documentário engajado”, tema da nossa conferência, talvez possa ser uma espécie de bálsamo, o resgate de alguma coisa genuína que se perdeu nesses tempos pós-utópicos e que não se transformou num mero exercício fútil de linguagem.
Evaldo Mocarzel é cineasta e jornalista. Recebeu inúmeros prêmios pelos seus documentários À Margem da Imagem e Do Luta à Luta. Atualmente é professor do curso de cinema da FAP/CINETVPR - Escola Superior Sul Americana de Cinema e Televisão do Paraná (CINETVPR), além de ministrar vários cursos e oficinas pelo Brasil.
