Fabiano Mauro Ribeiro

Rever a obra do grande mineiro e cineasta Humberto Mauro, ainda bem, tomou novo  impulso nos últimos anos.

Agora o poeta e escritor cataguasense, Ronaldo Werneck, presta justa e bem traçada elegia a Mauro.(Humberto Mauro Revisto por Ronaldo Werneck – ArtePaubrasil- São Paulo – 2009 –  447 fls). Werneck  tem há muito tempo uma ação efetiva no cenário cultural da cidade. Alem de publicações em jornais e revistas literárias, fez traduções importantes desde 1971, como a de A Feiticeira  de Michelet, Contos de Hoffmann (Hoffmann) em 72, e no terreno próprio da poesia, Selva Selvaggia.  Mais recente (2005) uma Revisita Selvaggia, lançada  no Rio – e em 2008  Minerar o Branco, esses últimos já com  o apoio maior da Cia Força e Luz Cataguases Leopoldina, sua base de trabalho, onde é editor de textos da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, e Diretor de Comunicação do Cineport..

A Fundação,adquiriu em 2002 os direitos parciais do cineasta, constituídos  principalmente pelos troféus obtidos pelo Diretor em toda a sua vida, que vieram integrar o Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases.  Em dezembro de 2007, foi inaugurado o Memorial Humberto Mauro, sito no segundo andar do Centro Cultural, locais imperdíveis para quem quer conhecer a obra de H. Mauro, assim organizada e bem estruturada, possuído inclusive uma sala dedicada a Zequinha Mauro, seu filho.

Em Humberto Mauro Revisto por Ronaldo Werneck, o autor mostra familiaridade e convivência no eixo Cataguases – Volta Grande. Nessa ultima, onde outras figuras do mundo do cinema nacional, iam a miúde beber da sabedoria do velho Humberto,no seu Rancho Alegre, depois de aposentar-se do INCE. Kiryrí rendauá toriboca opé – esse enunciado em tupy, é entrelaçado no título do livro, e é uma frase que Mauro disse ao autor em uma visita em 75 traduzida como Lugar de calma e sossego no Rancho Alegre.

O trabalho de reprodução de fotos, algumas raras, e com excelente padrão, e a diagramação geral do plano, é um peso na obra. Mesmo as extensas transcrições de textos, excertos de obras ímpares como as de Sheila Schvarzman (aliás é quem prefacia com muita acuidade o livro) são bastante gratas para servirem  principalmente  aos estudiosos que buscarem uma luz para   viajar nesse mundo muito peculiar e arriscar-se a se tornar um “templário,”como menciona com humor, Carlos Augusto Calil, em 84.(comentário Que Viva Mauro!, Mostra Embrafilme/ Força e Luz Cat. Leopold.)

Cabe lembrarmos-nos de uma assertiva em 2004 de Carlos Alberto de Mattos, ao falar em pesquisas  no livro de Sheila (Humberto Mauro e as Imagens do Brasil, Ed. UNESP, SP 2004)lembrando que o mestre dessa biógrafa, Marc Ferro, exalta as fontes primárias, como rainhas da  verdadeira pesquisa. Ocorre que obras como a de Werneck, que são de um elevado percentual de consultas com coletâneas fulcradas nas publicações já existentes, têm porem um valor elevado à parte para o leitor, quando aglutinam também notícias da imprensa em geral, e informes avulsos, ordenando tudo de maneira mais objetiva e regular, e aqui injetadas e  emolduradas pelo  lindo espetáculo do preto e branco, mundo aparentemente distante, mas que constitui uma sagrada palpitação.Esse mundo pertenceu não só a Humberto, mas principalmente a seu filho, Zequinha Mauro, muito a Luiz Mauro, o Lulu, e outros verdadeiros ícones como Edgard Brasil, Mario Carneiro, e demais mestres desse porte.

Como anota a autora do prefácio, é importante a transcrição do  discurso de Guilhermino  Cesar, um dos componentes do Grupo dos Verdes, feito em Gramado em 1978,( fls 60 a 88) páginas pode-se dizer,  sepultadas .

O retrospecto que Ronaldo Werneck faz  por exemplo,do livro  organizado por Alex Viani, (Humberto Mauro, Sua Arte Sua Trajetória no Cinema  – Artenova Embrafilme 1978) é de  notável  valor. Tal livro lamentavelmente não mereceu até o momento uma nova edição. O mesmo se dirá de Humberto Mauro, Cataguases Cinearte, de P. Emilio Sales Gomes-Ed USP Serie Cultura 1974) , e da obra da própria Sheila.

Mas todas as citações ou transcrições de trechos, não caem em tom de mera compilação – o autor mescla entrevistas, comentários, e toques de sua própria veia poética, consagrada, sempre com o fundo da excepcional diagramação.Fatos engraçados, de vivencia própria. Curiosos detalhes, como os comprovados pelos fac-similes  de um exemplar do Livro de Paulo Emilio ganho por Werneck, de uma sobrinha da famosa Eva Comello (Eva Nil) (fls  296/297).

À margem das folhas, a outrora Eva Nil, misteriosa por toda a vida, corrigiu e retrucou com letra tremula, algumas afirmações do biógrafo.Sempre fascinam, esses dizeres toscos escritos em missais, e livros antigos em geral, por pessoas enigmáticas já mortas – tais pensamentos, comentários ou corrigendas, refletem ângulos da personalidade dos ex-viventes, e  via de regra são expressões de verdades que  assumem uma imagem de surpresa, sepultadas com o próprio autor delas..

Ao final, antes da sequencia de fotos de Walter Carvalho, nada como reler, ou conhecer, o belo texto, “O Ultimo Filme ao Fim do Dia, do amigo e admirador incondicional de Mauro, Walter Lima Jr, publicado em novembro de 83 na Imprensa. Paulista…