Débora Butruce*
A preservação audiovisual: definição de alguns termos básicos
A preservação é o conjunto de ações necessárias para dar acesso, de maneira íntegra, a um acervo audiovisual. Este conjunto de ações inclui a coleta, identificação, catalogação, documentação, estabilização, conservação, restauração, difusão e disponibilização permanente, além de outras tarefas associadas. A preservação não é uma atividade isolada e pontual, mas um processo permanente. Ainda que para um arquivo não seja possível admitir limites temporais para a preservação das obras sob sua guarda, o envelhecimento é um processo inevitável que afeta todos os materiais, alterando suas características e impondo limites às suas possibilidades de conservação e reprodução.
. A conservação
A conservação é a atividade de proteção do artefato fílmico original de manipulação desnecessária, estabelecendo seu armazenando sob determinadas condições que retardem sua deterioração física. O filme tem valor enquanto objeto e como transportador de informações.
. A duplicação
Desde os primeiros momentos da atividade cinematográfica a indústria descobriu que o número de cópias de boa qualidade que podem ser obtidas dos negativos originais é limitado. A implementação do sistema de duplicação dos materiais foi a solução encontrada frente a necessidade imperativa de prolongar a vida útil dos originais cinematográficos.
Nos arquivos, as atividades de reprodução de preservação se iniciaram para transferir as obras cinematográficas a suportes de segurança. As películas inflamáveis - os nitratos - começaram a serem transferidas para suportes de segurança há muitos anos, e, para muitos arquivos, a realização destas reproduções se constituiu como uma enorme tarefa, que consumiu boa parte de seus recursos e levaram décadas para terminar.
No caso brasileiro, por exemplo, levou-se quase o mesmo tempo de existência e utilização deste material com sua reprodução, ou seja, levou-se quase cinco décadas para se conseguir reproduzir os materiais de nitrato restantes, e que não foram tantos.
No caso dos materiais em suporte de acetato e poliéster, visto que o volume do que existe se mostra bastante superior aos em nitrato, quanto tempo levaremos? O material ainda terá condições de ser reproduzido quando os recursos financeiros suficientes forem disponibilizados?
Os arquivos não podem admitir reproduções de conservação que não preservem todas as características das obras e, seja qual for o suporte técnico utilizado, uma reprodução de conservação corretamente realizada deve conseguir preservar, da maneira mais adequada possível, todas as características das imagens e sons contidos nos registros originais. Este esforço, técnico e econômico, acaba por representar um esforço equivalente a uma restauração.
. A restauração
A restauração consiste em um processo de duplicação do material a partir da recompilação do maior número de fontes originais existentes, o que envolve um amplo processo de pesquisa e tem por objetivo recuperar a integridade técnica e artística originais de uma obra da maneira mais fiel possível. Uma restauração nunca pode ser considerada definitiva, já que está sempre condicionada aos materiais que conseguiram ser localizados e ao processo tecnológico utilizado na época.
. Reproduzir para preservar
Ao mesmo tempo em que a deterioração é natural e irreversível, o fato de que a cadeia do material cinematográfico se estrutura em uma sucessão de reproduções se constitui como um instrumento essencial em face ao envelhecimento de seus materiais e sistemas.
Reproduzir a informação contida nos suportes originais para um novo suporte gera o retorno ao ponto de partida, ou seja, o novo material tem a possibilidade de reiniciar sua trajetória de envelhecimento e, por isto, reproduzir é uma estratégia básica nas atividades dos arquivos audiovisuais. Mas esta estratégia pode apresentar muitas dificuldades, tem um alto custo econômico e pode gerar conseqüências nefastas para os materiais originais.
Desta forma, a reprodução dos materiais audiovisuais e, em última instância, a restauração, são processos totalmente dependentes das ações de preservação adotadas por um arquivo, visto que tanto a reprodução e a restauração possuem limites técnicos bem claros. O estado de conservação de um material determinará a estratégia de restauração adotada. Se as ações de conservação não forem planejadas adequadamente ou se apresentarem insuficientes, implicarão, inequivocamente, em uma restauração limitada e parcial.
Portanto, a conservação do maior número de materiais, nas melhores condições e durante todo o tempo que seja possível, é a ferramenta primordial para um planejamento de preservação de longo prazo que permita assegurar a sobrevivência íntegra do patrimônio cultural audiovisual.
É preciso conhecer suas potencialidades e limitações. As possibilidades de atuação dos arquivos se relacionam com as tradições e com a atitude que a sociedade e as entidades que os sustentam - governamentais ou não - apresentam perante a preservação do patrimônio cultural e dos registros audiovisuais.
Todos os arquivos funcionam através de determinadas políticas, mas estas nem sempre estão articuladas e documentadas, além dos casos em que elas praticamente não estão definidas. A falta de identificação de uma base política de atuação e de procedimentos conexos pode levar a tomada de decisões arbitrárias e contraditórias e a supressão de responsabilidades.
As políticas servem de orientação e impõe restrições, ambas ações necessárias. O processo de articulação de uma política é uma prova intrínseca da competência de um arquivo, já que guiará os objetivos gerais da instituição e permeará todos os aspectos fundamentais de funcionamento de um arquivo.
Os arquivos devem discernir claramente suas possibilidades técnicas e econômicas e - na medida que seja possível realizar esta previsão - valorar a evolução desenvolvida a partir destas possibilidades no futuro da instituição. Equivocar-se nestas valorações pode gerar conseqüências desagradáveis para a preservação das obras que se tenta conservar.
O estabelecimento de critérios para a preservação de materiais audiovisuais só é possível se o arquivo dispor de instalações mínimas e de sistemas adequados para a conservação e o manejo de cada tipo de material e, sobretudo, de alguma equipe. Mas dispor de depósitos adequados não é a única condição necessária para assegurar a conservação das obras, os materiais se conservam para serem utilizados e, em conseqüência disso, as ações de conservação devem contemplar as instalações do arquivo como um todo. Os equipamentos e sistemas devem estar preparados e, preferencialmente, devem ter sido concebidos para favorecer a conservação. Além disso, os arquivos devem promover a formação constante e ampla de toda a equipe envolvida com a manipulação do acervo e suas tarefas cotidianas. Esta formação não pode estar limitada às pessoas que ocupem posições de responsabilidade nos organogramas dos arquivos: os problemas podem produzir-se e detectar-se em qualquer situação, e evitá-los e identificá-los é uma tarefa de todos os seus membros.
A construção ou a adequação de locais e equipamentos, a seleção e formação da equipe requerem importantes recursos econômicos e não terminam com a conclusão da construção dos depósitos e com a equipe contratada e formada. A manutenção e a renovação das instalações e dos equipamentos e a formação permanente da equipe seguirão exigindo consideráveis recursos.
Como diz Alfonso del Amo: “Devemos levar em conta que não é somente os materiais e as pessoas que envelhecem, mas as instituições também”.
Portanto, ao estabelecer as condições em que desejam manter os materiais armazenados, os responsáveis devem levar em conta a continuidade destas condições, que deverão se manter mesmo quando eles não sejam mais os responsáveis e ainda que os próprios arquivos atravessem crises que coloquem em risco sua permanência.
A adoção de uma estratégia de preservação de longo prazo busca não priorizar este ou aquele título, mas os materiais do acervo como um todo. Que as ações de conservação geram conseqüências benéficas para o futuro é uma verdade evidente em relação aos suportes audiovisuais.
As práticas e técnicas que retardam a deterioração e os danos que podem ser ocasionados se demonstram muito mais eficazes e mais baratas que qualquer procedimento de restauração, sempre limitados e pontuais. Tampouco temos que menosprezar os métodos adequados de armazenamento, manejo e colocação nas estantes, nem as medidas de transporte e segurança apropriadas.
A restauração de um material audiovisual dependerá, sobretudo, destes atos inaugurais.
“A coisa mais cara é a ignorância”.
Snowden Becker, Academy Film Archives.
*Débora Butruce é preservadora de filmes e desde 2007 atua como colabora da área de preservação do CTAv. Atualmente também é coordenadora técnica pela instituição do projeto Digitalização de acervos e Banco de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros, realizado em parceria com a Cinemateca Brasileira, além de atuar na restauração de títulos do acervo Cinédia junto com Hernani Heffner
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